13 agosto 2011

todos os dias me deixa à porta de casa e espera que eu entre. todos os dias tem histórias diferentes para contar. todos os dias me fala do jantar, do amor e dos outros. o rádio toca êxitos dos oitentas e eu sento-me exactamente no banco atrás do dele. à medida que a estrada vai ficando para trás os lamentos tornam-se profundos. que a vida está cara e o coração não está para brincadeiras. todos os dias me fala do amor. o senhor fernando é um homem bom, que só quer voltar a ser feliz. dorme seis horas por noite e trabalha nas que resta. tem dois trabalhos e um coração partido há anos demais. continua a acreditar na verdade das pessoas e nos sentimentos como se a vida já não lhe tivesse pregado partidas suficientes. paga cervejas aos amigos e tem um pássaro que lhe entrou pela janela a quem dá comida. também tem duas filhas que não querem saber dele e a maior mágoa na voz. todos os dias fala da mulher que (ainda) ama e que o enganou. todos os dias diz com um sorriso que mesmo naquele mundo onde inventou uma felicidade que já nem sabe se existiu foi a mais especial de todas as outras que lhe passaram pela vida. todos os dias deixa escapar que não quer acabar esta viagem sem chegar a casa e sentir um fim do dia aconchegado. raramente falo. limito-me a ouvir. e assim que saio do carro vou a pensar nele até meter a chave na porta. em tempos em que o mundo está de pernas para o ar, o senhor fernando tem-me dado quinze quilómetros de lições todos os dias. é um homem genuinamente bom e a quem gostava de prometer que ao fundo da minha rua vai estar um abraço à espera. um dia que me apeteça vou contar-lhe uma história que me ocupa muito espaço na memória do homem que, numa tarde de inverno, encontrei na minha praia de sempre. era fevereiro e a primeira vez que fiquei sem coração. ninguém por perto, só eu e as minhas músicas. não sei dizer mais do que à volta tudo era cinzento e eu estava entretida a observar as pegadas que ia deixando na areia à beira mar, quando de repente sinto alguém vir na minha direcção e pega num objecto enferrujado que me tinha passado completamente despercebido entre conchas, redes e latas que a fúria das ondas foi trazendo. dirigiu-se a mim com aquela espécie de arpão na mão e aos gritos disse-me: perdi-o no ano passado e agora o mar devolveu-mo. tudo o que vai, volta, menina. tudo o que vai, volta. virou costas e seguiu o seu caminho. tudo o que vai volta. a partir daí nunca mais me permiti deixar de acreditar.

4 comentários:

Mistral disse...

brutal*

C. disse...

Lindo demais :)

Me, Myself and I disse...

a vida é bonita quando temos com quem a partilhar.e o Sr. F. tem pelo menos o teu ouvido atento once a day.
e tal como tu ainda continua a acreditar.
A vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito, como dizia o outro.
Adoro a tua escrita cheia de urgência.
Parece que o Mundo vai acabar mas antes tens que acabar só mais uma estória.
Feels good.Feels right.
Continua.
*

Sofia disse...

<3 (É tudo o que sou capaz de dizer)