26 dezembro 2007

cativar

«ensinaram-me um verbo cuja beleza demora a compreender: cativar. não é aprisionar, reter ou enredar. é andar, passo ante passo, cada um mais bem pensado e sentido que o anterior, para conseguir que uma coisa ou alguém se propicie a virar para o que somos, queremos, onde estamos e precisamos de ir. pois a verdadeira esperança consiste em cativar, calmamente, o destino. não é forçá-lo. Se o destino nos dá um encontro, se nos apresenta a possibilidade de um amor, por uma pessoa ou obra, que nos move e nos faz desejar chegar a ela, é preciso continuá-lo, devagarinho, pela nossa própria acção. as temos de ser calculistas também. É uma prova de respeito. como é fácil fazer fugir quem se quer cativar, afugentando-o com demonstrações demasiados sinceras e completas do que se sente - é difícil o trabalho do encantamento, que precisa de ser medido e pensado, sem medo de se estar a ser sincero, frio ou calculista. infelizmente temos o culto da surpresa e da espontaneidade, que nos leva à preguiça de desabafar de repente. desejamos as emoções por cima das pessoas e das coisas, sem pensarmos duas vezes: "eu amo-te!", "este é o meu sonho!". fazemo-lo sem esforço, como se amar fosse, por si só, suficiente tipo "não vês que te amo! porque é que és tão parvo e insistes em não amar-me?"... esquecendo-se que há sempre alguém que ama primeiro». 
 (esperar, miguel esteves cardoso)

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