01 outubro 2013

«fica comigo. daqui a nada é noite e as noites custam, a mim custam, sobretudo quando os candeeiros da rua se acendem e as árvores e os prédios fronteiros logo diferentes, quase ninguém na rua, um miúdo com um cão lá ao fundo, uma tristeza parada na tonalidade do silêncio, estes móveis e estes retratos que não me ligam nenhuma, os teus passos na escada, tu no passeio: nem vou à janela olhar, não quero olhar. fica comigo só mais um bocadinho, dez minutos, meia hora, sei lá, o tempo inteiro. mesmo que não fales. mesmo que leias a revista do jornal. mesmo que não me toques. mesmo como se eu não existisse. há alturas, imagina, em que penso que não existo e depois vem a aflição, o medo, o meu pulso tão rápido, a voz da minha mãe, do fundo da infância».
[antónio lobo antunes]

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