13 novembro 2012

«virava-se na cama, ao lado da tereza já a dormir, pensando no que ela lhe dissera há vários anos no meio de uma conversa banal. estavam a falar de z., um amigo de tomas, e tereza declarara: se não te tivesse encontrado, tinha-me apaixonado por ele. achamos todos que é impensável que o grande amor da nossa vida seja algo de leve, algo que não pese nada; supomos que já estava escrito que o nosso amor tinha de ser o que é; que a nossa vida não era a mesma sem ele. estamos todos convencidos de que o próprio beethoven em pessoa com o seu ar carrancudo e os cabelos em desordem, toca o seu es muss sein! em homenagem ao grande amor da nossa vida. ao lembrar-se do que tereza dissera de z., tomas constatava que a história do grande amor da sua vida não estava marcada por um es muss sein, mas antes por um es konnte auch anders sein: podia muito bem ter sido de outra maneira. sete anos antes, declarara-se por acaso um surto muito grave de meningite no hospital da cidade de tereza e o chefe do serviço onde tomas trabalhava fora chamado de urgência. mas, por acaso, o chefe de serviço estava com ciática e, como não se podia mexer, tomas fora em seu lugar a esse hospital de província. havia cinco hotéis na cidade mas, por acaso, tomas instalara-se no hotel onde tereza trabalhava. por acaso, ficara com momentos livres antes de ir para o comboio e fora sentar-se na cervejaria. tereza estava, por acaso, de serviço e, por acaso, estava de serviço à mesa de tomas. fora portanto necessária toda uma série de seis acasos para fazer chegar tomas até tereza, como se entregue a si próprio, nunca tivesse podido encontrá-la. o seu encontro com tereza fora o resultado de seis acasos improváveis. mas um encontro não é precisamente tanto mais importante e cheio de significação quanto mais depende de um grande número de circunstâncias fortuitas? só o acaso pode ser interpretado como uma mensagem. o que acontece por necessidade, o que já era esperado e se repete todos os dias é perfeitamente mudo. só o acaso fala. nele é que deve tentar-se ler, como as ciganas fazem com as figuras deixadas no fundo de uma chávena pela borra do café. para tereza, a presença de tomas no restaurante foi o manifesto do acaso absoluto. estava sentado sozinho a uma mesa com um livro aberto à frente. a rádio estava a transmitir um programa de música. tereza foi buscar a aguardente ao balcão e fez girar o botão do aparelho para ouvir melhor. tinha percebido que era beethoven. ouvira pela primeira vez a sua música quando um quarteto de praga que andava em digressão pelo país viera àquela cidadezinha. a partir de então, beethoven tornara-se para ela a imagem do mundo «do outro lado», a imagem do mundo a que aspirava. agora, enquanto se afastava do balcão com a aguardente de tomas, esforçava-se por ler nesse acaso: como explicar que, no preciso momento em que estava a servir uma aguardente àquele desconhecido que lhe agradava tanto, tivesse começado a ouvir beethoven? o acaso tem destes sortilégios, a necessidade não. para um amor se tornar inesquecível é preciso que, desde o primeiro momento, os acasos se reúnam nele como os pássaros nos ombros de são francisco de assis».

Sem comentários: