09 dezembro 2011

entra-se criança. sai-se adolescente. tive a sorte de poder fazer parte. tive a sorte de os meus pais terem escolhido por mim o melhor. o colégio. quem lá andou sabe o que quero dizer. do espírito de união e das saudades que deixa. experimentei viver de verdade dentro daqueles portões. numa pequena aldeia entre os montes do douro. quando todos os meus colegas de primária seguiram para o ensino público da cidade e eu me vi em direcção a uma escola nova, enorme, cheia de disciplinas e caras desconhecidas. a rotina foi-se aperfeiçoando ao longo dos anos. acordávamos e ainda era escuro. juntávamo-nos aos pares, espalhados por vários pontos e uma carrinha levava-nos. assim íamos, ao estilo almost famous, sempre a subir e a fazer curvas. a cantar, a ler a palermice do que dizia o signo que vinha na bravo, a fazer os jogos de compatibilidade da agenda electrónica rosa piroso que de repente recebemos num natal do fim dos 90. de desconhecidos passámos a amigos. dos que ainda hoje fazem parte de todos os dias. o colégio. foi a melhor escola que frequentei e a melhor que conheço. a única que sem esforço consegue juntar o científico e obrigatório à arte. desvenda talentos, ajuda a fazer escolhas, ensina a ter esperança. o colégio. que tem um lema: uma escola sem música é como um corpo sem alma. foi lá, naquele inverno gelado, que ouvimos pela primeira vez pearl jam. que soubemos o que era amizade. onde li o livro que quase dá nome a este blogue. que conheci a carlinha e a joana. e soubemos quase ao mesmo tempo que éramos um zero à esquerda em voleibol. o colégio onde passávamos as quartas livres a gastar o chão do ginásio com a oops i did it again a tocar vezes sem conta e a seguir íamos para o balneário com o gravador a pilhas fazer entrevistas a ninguém e pintar as unhas das mãos com a mistura mais ridícula de vernizes berrantes entre o vapor dos banhos quentes. o colégio onde vimos um filme horrível, em que o padrasto de uma miúda com ar fofinho lhe cortou o cabelo à facada, em formação cívica e fui a melhor a português no teste dos cantos d'os lusíadas. o colégio que eu e o tozé fomos representar no programa de ciência do pedro miguel ribeiro, que passava na rtp2 antes de jantar. o colégio onde ganhei o concurso de escrita e descobri que era em letras o meu lugar. o colégio que, na altura em que timor lutava pela independência, nos levou ximenes belo para nos fazer ver quão bom era viver em paz. o colégio que honra, perante todos, quem estuda e demonstra valor. não só na sala de aula. mas com os outros. nas actividades e no pátio. éramos o rosto da turma c, à entrada, à vista de toda a gente. as memórias são frescas. tanto como ainda sou capaz de detestar o arroz de moelas da cantina e ter a certeza que no intervalo da hora de almoço, antes da reunião do grupo de dança ou da sessão de cinema em cinco ou mais partes, há ainda quem compre gomas e chupa-chupas ácidos. foi como se tivesse de lá saído na semana passada. voltei lá ontem. o quadro de honra continua no mesmo sítio. a zezinha continua a ser a companhia quando a campainha toca e o professor não aparece. o piso de baixo continua a ter mesas de ténis e o campo de terra é na mesma o refúgio de muitos. o salão de festas, esse então, não muda. voltou a encher-se de gente e ofereceu o mais incrível espectáculo de amadores com carradas de talento em bruto. só o ringue de patinagem não está tão cor de laranja e as caras à volta voltam a não ser conhecidas, como no primeiro dia em que lá entrámos. de tudo o que é certo, o que sei, é que lhes devo bastante do que sou. e que sinto falta de quase tudo. desses tempos em que conseguia conjugar trabalhos de casa, ballet e lições de piano sem me cansar. o colégio. só quem por lá passou sabe o que é isto que estou para aqui a dizer.

4 comentários:

Anónimo disse...

Eu andei lá.... E digo o mesmo que tu... Ainda hoje relembro a educação do colégio.

Sofia disse...

Eu não passei por lá. Mas conheço um sítio que tem em mim exactamente o mesmo efeito: a minha escola secundária. E acredita que percebo a forma como falas do teu colégio :) *

Riuta disse...

Não ando num colégio e nem por isso deixei de me deliciar a ler isto. Temos não sentir o mesmo um dia mais tarde, qd tiver os meus 24 e voltar á secundária...

Gonçalo Pereira disse...

ficam as saudades de sonhar sem pesadelos. saudades de acreditar nas coisas e nas pessoas com simplicidade. saudades de ter a certeza que a vida é maravilhosa sempre...até quando não é tão maravilhosa assim. saudades de ter tempo para chorar com uma música bonita. saudades de tocar todos aqueles instrumentos musicais, e depois ir jogar à bola.. tenho saudades caramba...quem lá andou sabe