05 outubro 2011

o que eu gostava mesmo é que houvesse um qualquer tipo de premonição que avisasse que maus tempos se aproximam. um recadinho debaixo da porta a dizer que a sorte se mudou de armas e bagagens para outra morada. uma garrafa com uma mensagem no rótulo que alertasse que de determinado dia em diante não há outro remédio senão viver de consequências de estilhaços de coração. assim, no dia em que tudo acaba estaríamos preparados. já de armadura vestida, escudo e machado de guerra em cada mão em jeito de quem diz venham de lá, malditos, venham. mas não. no dia em que tudo acaba o sol não deixa de brilhar. os carros passam à mesma velocidade. as pessoas continuam na correria dos dias, em contra-relógio, a fazer de tudo um problema de grande escala. não olham para o lado. continuam de auscultadores nos ouvidos no reboliço dos transportes públicos ou a ler a memória das minhas putas tristes sem tirar os olhos das letras pequeninas do livro de bolso enquanto esperam vez na repartição das finanças. a televisão continua com a mesma programação e o rádio continua a passar as mesmas músicas. os vizinhos cumprimentam-nos com o mesmo sorriso. o miúdo do prédio ao lado sai de casa depois do pôr do sol para ir fazer jogging à beira rio. o senhor da mercearia tenta vender em promoção os iogurtes quase fora do prazo de validade. não há quem deite a mão e perceba que no dia em que tudo acaba o last goodbye devia tocar em todas as ruas e não só na frequência da nossa cabeça. ou então não. porque o dia em que tudo acaba, para outros, pode ser o dia em que tudo começa. e da mesma maneira o sol não só não deixa de brilhar, mas luz com mais intensidade. os carros passam à mesma velocidade, mas tolera-se o buzinão. as pessoas continuam na correria dos dias, mas tem-se todo o tempo do mundo condensado no pulsar do lado esquerdo. a televisão passa aquele filme que há meses se queria ver. na rádio dizem que o bom tempo vai continuar depois de passar a música preferida do momento. e mesmo não fazendo, de repente, tudo começa a fazer sentido. até ao dia em que tudo acaba e a vida recomeça irremediavelmente no dia a seguir.

1 comentário:

Mariana disse...

tudo muito bem dito :)