vi-o há tempo demais para me lembrar de pormenores. em traços gerais é a história de uma pessoa bonita de coração estilhaçado que nas horas vagas pega numa guitarra e vai para a rua fazer o que tão bem sabe, em busca do que lhe sustenta um sonho maior. um dia em troca de uma mísera moeda conhece uma checa que o inspira e sem querer o incentiva a ir em frente. é uma história simples. no enredo, na realização. sem rodeios. sem grandes efeitos. como se alguém decidisse um dia pegar numa câmara e filmar fragmentos dos dias de um homem e uma mulher perfeitamente comuns que se cruzam e a vida lhes acontece naturalmente entre desilusões e escolhas com música como pano de fundo. chegou até mim por uma canção. ontem trouxeram-ma de novo aos ouvidos. falei no filme. e fiquei com vontade de o rever. no meio de tantos pormenores que me escapam consigo recordar-me bem do passeio por dublin a dois com um aspirador azul a reboque e a resposta sem tradução, que sempre preferi acreditar que era um sim. a liberdade de movimento do próprio filme permite que assim seja. do início ao fim. e a diferença está aí - disso lembro-me bem. é uma história simples que consegue ser complexa de tão pouco explícita nos pontos principais. transborda momentos mágicos, no entanto a racionalidade acaba por levar a melhor. o final chega a ser duro precisamente por se aproximar tanto do real e mais conveniente. lembraram-me da canção e eu fiquei a pensar em como é injusto que as pessoas se deixem levar pelo que é suposto ser correcto ao invés de arriscar pelo que o coração pede. então e o entusiasmo? onde fica? a adrenalina de correr riscos, ir em frente, de olhos fechados sem querer saber no que pode vir depois? prefere-se a zona de conforto. e é a maior estupidez. finta-se vezes demais a espontaneidade. prefere-se a lógica ao impulso, à mercê das responsabilidades, das desculpas para tudo e mais alguma coisa que se arranja para não viver o que se quer mas não se deve. prefere-se adiar, porque amanhã pode ser que haja outra vez a tal oportunidade, e tanta conversa fiada que não me cabe na cabeça. se é isto que faz sentido, recuso-me a que faça. é tão mais simples. e o simples não é sempre o mais bonito?
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