19 dezembro 2007

faz-de-conta

ultimamente é frequente ouvir-se dizer que vivemos num país do faz de conta. há uns anos, estudei uma tal teoria de Rousseau que ditava que o homem é bom por natureza, a vida em sociedade é que o corrompe (se a senhora professora de estética visse isto até que ia ficar a achar que se calhar até sabemos mais do que ela pensa). influenciada por esta brilhante conclusão do jean-jacques (para terem noção de como eu acordo a pensar - no que não devo, se calhar... whatever!), acabo de transportar há instantes este pensamento para a minha vida e acabo de atingir uma não menos brilhante conclusão: ando a viver ao faz de conta (e finjo ter paciência, como cantam os outros dois). faz de conta que hoje não sou a antítese do que costumo ser. faz de conta que hoje vou estar onde queria estar depois de quatro longos meses de ausência. faz de conta que sou jornalista quando efectivamente ainda não sou, só que ando por aí a entrevistar pessoas, a escrever crónicas, artigos de opinião e a fazer reportagens. faz de conta que não vou pelos cabelos quando tenho de fazer uma peça para televisão. faz de conta que me sinto preparada para daqui a uns meses enfrentar as feras. faz de conta que nunca ponderei a ideia de realmente ser isto que quero para mim. faz de conta que o meu sorriso é todos os dias o "sorriso do está sempre tudo bem", como parece aos olhos de quem não me conhece do avesso. faz de conta que há uns minutos atrás o ricardo me disse exactamente isso e eu fiquei a pensar que se às tantas não era bem assim. faz de conta que me interesso pelas conversas sobre massagens, só porque ultimamente é a única maneira de fazer de conta que ainda há matéria para sustentar uma relação. faz de conta que a creep dos radiohead que a carla me dedica ainda faz o mesmo sentido que há uns tempos atrás. faz de conta que falo de assuntos próprios de meninas com mais de 20 anos e quem participa no diálogo acaba por me perguntar a idade duas vezes e conclui sempre da mesma maneira. faz de conta que hoje tenho 13. faz de conta que hoje aceito sem contestar todos os argumentos que dou a mim mesma nos quais salvaguardo todas as razões e mais algumas que tenho para sorrir para o mundo. faz de conta que hoje não tenho tempo para pensar em todas as outras que fazem com que o meu sorriso se esconda. faz de conta que penso que sabes que estou aqui, mesmo quando pareço não estar, só porque tens a mania de me pressentires. faz de conta que lá fora está um calor abrasador. faz de conta que percebo todas as coisas que realmente me custam a entender. faz de conta que é não é quase dia 24 e eu ainda acredito no pai natal. nele e numas quantas outras mentiras.

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