«o mais estranho, é que gosto mesmo de ti. gosto moderadamente dos amigos e tolero os colegas, a porteira, a empregada e o antunes do supermercado. mas de ti, gosto mesmo. a tua lembrança é um prazer que desliza, surripiando-me; chegas de repente, agradável como uma brisa quente ou uma boa notícia, e eu imagino-nos cenários, não amorosos nem eróticos, mas, antes, de circunstância: encontros fortuitos, casuais, um pequeno-almoço, um relance de carro, um telefonema, uma gargalhada, um encontro de pulsos, de tornozelos. Faço-o sem qualquer expectativa romântica ou intuito amistoso: és menos do que um amante e mais do que um amigo. não que me sejas mais próximo ou íntimo, porque não o és, mas porque, mesmo longínquo, me exaltas e entretens, ocupando o meu espírito movediço e centrando-o, como a perspectiva de ir de férias ou de casar amanhã. não me iludo, não é disso que se trata: apenas te construo em mim, uma e outra vez, como uma primeira dentada antecipando a gula, lenta e deliberada. Nunca o esmaecer do teu rosto me angustia, antes, enleva-me e inspira-me, soalheiro. há momentos em que te conduzo para sítios bonitos de cartaz, como jardins secretos e praias desertas, e onde te vejo ao meu lado como se estivesses mesmo. ali, entabulo conversas, contradigo-te e acotovelo-te, deixando que me faças cócegas e me olhes longamente, como os casais nas fotografias. encontro-te no estame de uma flor, na caruma dos pinheiros e na linha do horizonte: basta-me olhar com atenção. e cheiras sempre bem: uma mistura de pólenes, resinas e maresias, da qual sobressai o travo adocicado do desejo, quieto como as nuvens mais altas. acima de tudo, enterneces-me. e é esta perenidade mansa, que não reconhece o escavar do tempo, que não pede retorno e se basta em si mesma, que às vezes me inquieta e assusta, nem sei bem porquê»
1 comentário:
É isso mesmo: que se fodam todas as bruxas que tentam sem sucesso amaldiçoar os teus dias.
És forte, porque consegues incomodar gente tão mesquinha, sem nunca desceres ao nível delas.
Eu estou do teu lado, não fosse eu tua partener lol
Continua assim Ana, porque mais tarde ou mais cedo os saltos altos partem-se...
bjinho
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